Comunicação digital na era da participação saindo do forno

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Conteúdo sem engajamento é apenas volume. Acredito, como Henry Jenkins, que a economia da mídia propagável cria aberturas para mudanças sociais, culturais, econômicas, legais e políticas. O livro Comunicação digital na era da participação tem a força dos Creators (criadores de conteúdo digital), os questionamentos do empreendedorismo digital sob um olhar curador e um mergulho crítico na atual era do engajamento.  Afinal, as primeiras décadas do século XXI estão transformando o dia a dia do planeta. É preciso estar aberto para mudar o que precisa ser mudado e manter o que ainda funciona como explica Leandro Beguoci no livro.  As mídias sociais nos desestabilizam pois não focamos no tempo presente, achando que a dispersão é o estado natural da nossa existência mergulhada num tempo cada vez mais veloz. Se você está andando na rua, ande. Se você está no celular vendo sua timeline do Facebook, pare e curta os amigos. Focar no presente é libertador e te ajuda a entender a era da participação.

Ilustração by @jean_jullien. #jeanjullien #love #socialmedia #picame #vector

A força da mídia social ganha segunda edição ampliada

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Como entender a constelação de relacionamentos, sentimentos, informações e desejos que circulam em fluxos nas mídias sociais? As divagações (wandering) podem ser percebidas nas postagens do Facebook, nos grupos do WhatsApp, nos blogs, ou em tuites de 140 caracteres. No livro “A força da Mídia Social” (2 edição) recorremos à filosofia, à cognição, à tecnologia da informação e à sociologia para tentar mapear essa narrativa orgânica e remixada. Em constante mutação, ela carrega a mudança social como uma textura. A sociedade mudou e a comunicação é um agente fundamental para construção de memória e sentido nesse novo contexto social. Por ora, teremos como comunicadores, de nos concentrar em propor melhorias para promover o uso da não-linearidade, cuja cognição ocorrerá conforme a bagagem cultural e sígnica de cada leitor. Boa viagem!

Link para editora

A rua fala

A protagonista de “Mesmo Se Nada Der Certo” (2013) é Gretta (Keira Knightley), uma compositora inglesa que vai aos EUA acompanhar o namorado Dave, um roqueiro em ascensão. Eles vivem cinco anos juntos e ela acredita que são uma dupla, mas Dave está mais preocupado com os shows, as fãs e a vida de rock star.  Ao ser dispensada pelo namorado, Gretta perde o chão e aos poucos deixa que as ruas de Nova Iorque falem com ela.

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O roteirista e diretor John Carney faz com que a câmera em movimento nos ofereça um passeio pelas ruas da Big Apple, com seus barulhos, bêbados, trânsito, magia e pontos turísticos. Dan (Mark Ruffalo), na pele de um ex-produtor decadente, (em uma das minhas cenas favoritas) acompanha Gretta mentalmente com uma orquestra, enquanto ela canta tímida num barzinho local.  Dan (Ruffalo) tenta convencê-la a mudar de visual, ou mesmo fazer um estilo “Norah Jones”, mas a garota de estilo retrô tem humor ácido e se recusa, dizendo que ele está mais para um Homeless do que para um produtor de sucesso. Eles caminham juntos e ela muda de ideia no dia seguinte, ligando para ele. Dan sugere gravar na rua o álbum de Gretta, misturando sua voz e os instrumentos aos sons da cidade.

É tão doce e real, que nos perguntamos pra que criar cenários que não sejam o próprio real? A crítica gostou pouco desse filme, mas nada melhor do que pensar no conceito de “Multitude”, onde Negri diz que é a multidão que comanda a história, absorvendo a proposta do diretor irlandês John Carney, ex-baixista do grupo irlandês “The Frames”, que deixou a música pelo cinema e em 2006 dirigiu “Apenas uma Vez”, um musical moderno e sensível.

 

 

A letra de “Star, Star”, da banda “The Frames” já apontava essa capacidade de Carney para ler as ruas. “A multitude persegue o comum e vai se bater por liberdade, igualdade e desenvolvimento. A multitude não é uma massa sem forma, é um conjunto de singularidades que propõe condições para um novo mundo”, nos ensina Antônio Negri.

Eles não se conhecem, mas o italiano Negri tem muito para conversar com o irlandês Carney, pois ambos compartilham da mesma visão de porvir.

Bolo de caneca e a superficialidade da rede

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“Ética, generosidade, honestidade e altruísmo são virtudes cada vez mais raras num mundo onde pessoas cobram para doar sangue e empresas pagam mendigos para guardar lugar em filas. É nessa sociedade que você quer viver?”, pergunta o jornalista Leandro Beguoci em reportagem na revista Galileu. Nos Estados Unidos já é possível pagar para alguém segurar seu lugar na fila do show, do cinema, do estádio. Mendigos e moradores de rua são contratados por empresas para realizar esse serviço. Novamente a questão do tempo. Aquele slogan, tempo é dinheiro, que tanto povoou a mente dos executivos nos anos 90, cada vez mais, com a ajuda da tecnologia social, tem criado problemas de exclusão social, gerando obesidade infantil, depressão entre outras anomalias do nosso tempo fluxo.

Segundo Nicholas Carr, autor do livro A geração superficial, “quando estamos on-line frequentemente estamos desligados de tudo ao redor. (…) Para difundir nossos pensamentos através de postagens em blogs ou atualizações do Facebook, a nossa reputação social está, de um modo ou de outro, sempre em jogo, sempre em risco”. Esse risco eminente muitas vezes ganha roupagens mais sedutoras como, por exemplo, no caso do aplicativo Secret. Inicialmente, a missão do APP, criado nos Estados Unidos, em janeiro de 2014 e desde maio sendo usado por brasileiros, era a criação de um espaço no qual as pessoas em anonimato conseguissem compartilhar suas angústias e anseios, ou somente segredos por meio de fotos e textos.

Rapidamente o aplicativo virou uma ferramenta para cyberbullying, para brigas de família, términos de namoro, além do perverso revenge porn, a pornografia de vingança. Ato de compartilhar imagens de cunho sexual, em geral explícito, sem o consentimento do fotografado, após brigas. Acrescentarei nesse papo, as manifestações de falta de educação, piadas e memes de mau gosto, teorias da conspiração, dedos apontando “culpados”, que circulam na web após a morte de uma personalidade pública. Foi assim com o ator norte-americano Robin Williams e também com o político Eduardo Campos.

Em questão de horas, a web ganha uma avalanche de versões de mau gosto. Para a educadora Andrea Ramal, “os pais precisam ficar atentos a formação ética dos filhos. Cuidem de princípios que são imprescindíveis para a convivência social. Formem para a civilidade. Ensinem critérios éticos para guiar todas as atitudes da vida, inclusive o que se diz e se pratica na internet”. Não acho que seja apenas uma missão dos pais, mas também dos gestores de Comunicação, dos educadores, dos amigos, dos avós, dos tios, etc. Do mesmo modo que apoiamos bandeiras como reciclagem, diminuição do consumo, respeito às diversidades políticas e sociais, precisamos cuidar do conteúdo que trafega na internet. A web é um corpo social que precisa de cuidados.

Se você compartilha e acha engraçadinho zombar de Eduardo Campos que acabou de morrer, o que esperar das suas postagens no Secret? Aliás, pra que serve o Secret? Já se perguntou antes de baixar o APP e começar, munido de “certo” anonimato, a contar segredos alheios ou humilhar pessoas? O brasileiro é conhecido por fazer piadas até das próprias desgraças. Foi assim na Copa do Mundo e em outros grandes eventos públicos. Mas a nossa paixão por redes sociais e o uso desenfreado tem impedido de existir um tempo de decantação, reflexão. Entramos na manada e começamos a xingar e fazer piadas antes de refletir um minuto o que isso melhora a vida no planeta.

Carr explica isso pelo excessivo uso do córtex pré-frontal enquanto navegamos na web. “O redirecionamento dos nossos recursos mentais, da leitura de palavras para a realização de julgamentos, pode ser imperceptível para nós ao clicarmos, mas foi demonstrado que esse uso cerebral excessivo impede a compreensão correta dos fatos”. Cada vez mais penso e pesquiso sobre a questão do tempo na vida atual.

O bolinho de caneca

Estamos criando crianças obesas pois, como pais, compramos mais alimentos processados do que naturais – tudo com a justificativa de ganhar tempo. Mães não tem tempo. Ninguém tem tempo. Ou seja, o tempo de lavar o alimento, cortá-lo, prepara-lo e servir não existe mais. Queremos o bolo de caneca de 1 minuto. E iremos saboreá-lo na frente de uma tela, aliás cada um na sua tela e na sua caneca. O bolo não serve apenas para matar a fome de doce em 1 minuto. O bolo serve para socializar a família em volta da mesa. Por que gastar um minuto curtinho a piada de mau gosto sobre a morte de Eduardo Campos, enquanto seu bolo de 1 minuto está no micro-ondas, em vez de gastar esse tempo batendo a massa com as mãos na cozinha? Pense nisso quando estiver fazendo suas compras no supermercado. Pense nisso quando estiver na fila do check-in do aeroporto olhando suas notificações no Facebook. Tempo não é só dinheiro. Tempo é encontro, socialização, generosidade.

Coluna publicada originalmente no portal Aberje

A existência valorizada por likes. Será?

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O primeiro like da história do Facebook foi dado no dia 9 de fevereiro de 2009. Cinco anos depois, os números mostram o “curtir” como um dos maiores fenômenos culturais da atualidade. São 1,8 milhão por minuto ou 4,5 bilhões diários na rede social”. Este trecho faz parte da reportagem Tudo por um like, publicada na revista Galileu. Para Zygmunt Bauman, principal pensador da atualidade, “a condição de ser observado e visto foi reclassificada de ameaça para tentação. A promessa de maior visibilidade, a perspectiva de “estar exposto” para que todo mundo veja e observe, combina bem com a prova de reconhecimento social mais avidamente desejada, e, portanto, de uma existência valorizada”.

Depois de alguns anos pesquisando o comportamento dos usuários nas redes sociais para escrever o livro A força da Mídia Social (2010), que ganha nova versão atualizada e ampliada neste segundo semestre, percebi que estamos vivenciando a mesma solidão que o personagem Theodore, interpretado por Joaquin Phoenix, no filme Her, do diretor Spike Jonze. O longa mostra a interação homem-máquina de forma perturbadora. Theodore é instável demais para conseguir lidar com relacionamentos, e acaba por se render à máquina. Ele interage diariamente com o sistema operacional Samantha e acaba se apaixonando pelo software. Acho que as pessoas viciadas em likes e selfiessão meio Theodore, pois são solitárias e precisam dessa valorização virtual para manter a autoestima em alta. E também têm dificuldades de administrar o mau humor quando são contrariadas, o que é facilitado pelo relacionamento digital.

“Se eu gostava de tal pessoa porque ela curtia muito tudo que eu postava e parou de curtir; basta deixar de seguir. Simples e indolor”, diz um usuário do Facebook.

O efeito dopamina

Quanto mais curtidas, mais se aumenta a dose de dopamina no cérebro e a pessoa sente-se mais feliz, concluiu a professora Kristen Lindquist, da Universidade da Carolina do Norte, nos Estados Unidos. Essas pesquisas, ainda em fase preliminares, podem nos ajudar a entender a vontade sem limites de se expor e compartilhar. A popularização da internet gerou uma avalanche informativa, permitindo que novos atores produzam conteúdo. A mídia social representa um conjunto de ferramentas que permite ao usuário (e consumidor) participar também como construtor, gerando conteúdos, serviços, informação e entretenimento em pé de igualdade com produtores profissionais. Isso precisa ficar claro para o profissional que atua nos dias de hoje na área de Comunicação. A interação social, movida pela participação e pela influência, deixou o controle da mídia tradicional a ver navios. Mergulhados em selfies, likes e compartilhamentos, tentamos entender o complexo momento atual.

Esta coluna foi publicada inicialmente no site da Aberje

 

Tempo esgarçado

 

A solidão espicha o tempo

 

Que se abre em leques

 

O vento norte sopra devagar

 

a braçada fica calma

 

o azulejo escorrega

 

pedindo afeto à piscina

 

A noite brilha na varanda do arranha-céu

 

o céu conforta

 

o chão aflige

 

Falar pra que

 

Ouvir ruídos é mais instrutivo

 

e exigente

consigo

contigo

convosco

 

Aprendemos a perder a cada dia

o viço da pele

a febre por amor,             que um dia existiu

o inusitado que aflige

 

Descobrimos o aparador que te abraça

e só faz barulho ao ser tocado

Nada pede

ou exige

Ele está ali. E basta.

Como a escova de cabelo

que espera paciente

a brincadeira começar

uma, duas, dez escovadelas para dormir

para acordar

A escova, o aparador e o vento nada pedem

Ou talvez, de vez em quando, saia um pedido baixinho

Preguiça ao tempo esgarçado dos dias

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“A sociedade informacional, vislumbrada por Castells, tornou-se mais flexível, remixada e cheia de camadas”

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Em pleno século XXI, as telas permeiam o dia a dia de muita gente. Difícil encontrar, nas grandes metrópoles, quem nunca tenha ouvido falar de computadores, ou tablets ou outros objetos tecnológicos. As novas realidades experimentadas diariamente são abordadas em um misto de ficção e análise no livro de Pollyana Ferrari e Fábio Fernandes, editado pela editora Estação das Letras e CoresO livro é um thriller científico, com personagens ficcionais que vivenciam experiências reais do nosso dia a dia conectado onde suas interrelações mediadas por telas acabam se tornando uma espécie de rizoma deleuziano, mas sem o peso didático. São cenas baseadas em fatos reais ou mesmo ficcionais, em coisas que aconteceram com nós mesmos ou amigos, amigos de amigos, pedaços de diálogos entreouvidos na rua, enfim, o mundo multifacetado como ele é hoje.

“Propomos mapear nossa relação diária com as telas, sejam de celulares, laptops, tablets e outros dispositivos. E como o uso de aplicativos como Twitter, WhatsApp, Facebook, Instagram e milhares de APPs  vem mudando a forma das pessoas se comunicarem e por consequência a Comunicação”, diz Pollyana Ferrari.

A sociedade informacional, vislumbrada por Castells, tornou-se mais flexível, remixada e cheia de camadas do que pensávamos no final do século XX. “É uma mistura do tempo líquido proposto por Bauman com as experimentações técnicas de Manovich e sócio-antropológicas de Latour. Transitar torna-se, na nossa opinião, a melhor bússola desta primeira metade do século XXI”, explica Fabio Fernandes.

Tudo virou de cabeça pra baixo e a Comunicação é um agente fundamental para construção de memória e sentido nesse novo contexto social. “Como comunicadores, devemos nos concentrar em propor melhorias para promover o uso da não-linearidade, cuja cognição ocorrerá conforme a bagagem cultural e sígnica de cada leitor”, ensinam Pollyana e Fabio. 

 

No tempo das telas: lançamento 26/3 em SP e 11/4 no Rio

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O livro “No tempo das telas: reconfigurando a comunicação” é um thriller científico, com oito personagens ficcionais que vivenciam experiências reais do nosso dia a dia conectado onde suas interrelações mediadas por telas acabam se tornando uma espécie de rizoma deleuziano, mas sem o peso didático. São cenas baseadas em fatos reais ou mesmo ficcionais, em coisas que aconteceram em parte com nós mesmos ou amigos, amigos de amigos, pedaços de diálogos entreouvidos na rua, enfim, o mundo multifacetado como ele é hoje.

Propomos mapear nossa relação diária com as telas, sejam de celulares, laptops, tablets e outros dispositivos. E como o uso de aplicativos como Twitter, WhatsApp, Facebook, Instagram e milhares de APPs  vem mudando a forma das pessoas se comunicarem e por consequência a Comunicação. A sociedade informacional, vislumbrada por Castells, tornou-se mais flexível, remixada e cheia de camadas do que pensávamos no final do século XX. É uma mistura do tempo líquido proposto por Bauman com as experimentações técnicas de Manovich e sócio-antropológicas de Latour. #Transitar torna-se, na nossa opinião, a melhor bússola desta primeira metade do século XXI.

Sobre os autores:
Pollyana Ferrari é doutora em Ciências da Comunicação pela ECA/USP e consultora web em arquitetura da informação e mídias sociais. Há 25 anos atua no mercado editorial de TI, tendo dedicado os últimos 16 anos à internet. É professora da PUC-SP, PUC-RS, UCS, FAAP e Aberje, nos cursos de pós-graduação em Comunicação . Autora dos livros “Jornalismo Digital”, “Hipertexto, Hipermídia” e “A força da mídia social”, além de 11 participações em livros sobre Comunicação . Com a publicação da obra “Jornalismo Digital” (2003), torna-se uma referência no campo do jornalismo no suporte digital. A abrangência do seu estudo está presente em mais de 550 teses e artigos científicos, tornando-se bibliografia básica adotada nos cursos de Jornalismo e Publicidade no Brasil e em Portugal.

Fabio Fernandes  é escritor e tradutor. Professor da pós-graduação em Tecnologias da Inteligência e Design Digital (TIDD) pela PUC-SP e Coordenador do curso de Mídias Digitais do Istituto Europeo di Design – IED São Paulo. É autor dos livros Interface com o Vampiro (Writers, 2000), A Construção do Imaginário Cyber (Anhembi Morumbi, 2006), Wild Mood Swings (Mojo Books, 2008) e Os Dias da Peste (Tarja, 2009). Traduziu cerca de cem obras entre livros e graphic novels, entre os quais Laranja Mecânica, de Anthony Burgess, VALIS e O Homem do Castelo Alto, de Philip K. Dick. Fez parte da classe de 2013 da Clarion West
Writers Workshop, uma das mais conceituadas oficinas literárias dos Estados Unidos.

O futuro do livro

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Durante a produção em 2011 do web documentário “Transcrever” conheci e entrevistei o professor Fábio Fernandes, pesquisador sobre o futuro do livro e da escrita. E no processo de escritura do livro “No tempo das telas”, o convidei para escrever comigo, pois resolvemos propor um Thriller científico com 8 personagens ficcionais que vivenciam experiências reais do nosso dia a dia conectados. Lançamento previsto para início de 2014. Aguardem!